sábado, 5 de dezembro de 2015

Devaneios II

Dia 14 de julho.
Música. Microfones.
Alguém de fora. 
Uma cama de solteiro e respirações cruzadas.
Flashback.
Silêncio. Deveria ser feito. Deveria. 
Músculos da boca se moviam freneticamente. 
Mãos se perdiam embaixo dos... 
Não tinham lençóis. 
Alguém estava ao lado.
Silêncio que não fora feito.
Espionagem fora de hora.
O flagra silencioso revelado apenas mais tarde.
O último suspiro satisfeito e a entrega a Morfeu. 
Uma pizza. Voz e violão. A chuva que rompia o céu.
Cantava pra mim sorrindo.
Como se fosse sua. 
Apenas sua.
Eu me senti sua.
Ainda havia alguém de fora. 
Observando a tragédia.

Dia 16 de julho. 
Bar. Bebida. Música alta.
Tentação dupla. 
Opostas de corpo e de alma.
Opostas de cor. Afinidade.
Amor duplo.
O fraterno e a paixão.
A de ontem e a de hoje.
As primeiras. 
Drinks. Doses. Três.
Respirações inconstantes. Inúmeras distrações.
Pontos sendo tocados. 
Lugares sendo mexidos. 
Coração sendo reavivado.
Sem saber. 
O sentimento corria livre. Grudou.
Como chiclete. E não quer sair.
Tecidos se esvaiam.
Um arco-íris era formado.
No chão. Na cama. No peito. 
E mesmo com todo respeito.
O medo não existia.
O limite. Os costumes.
Principalmente a preocupação. 
Batida lenta. Ritmo lento.
Gostoso. Maliciável.
Sussurros. Várias línguas.
Talvez duas ou três.
De uma vez. 
De uma só vez.
Apenas duas, após. 
Era amor.
Eu estava certa.
Mas. Eu não podia. 
Eu não poderia pensar assim.
Pensei. 
Espelhos da alma se cruzavam.
Respirações. Mais respirações.
Batimentos e batidas.
Percussão viva.
Uma falhada.
Duas.
Três. 
Cinco.
Morfeu.
E fim. 

Devaneios.

Faz tempo que eu não escrevo mais.
Talvez as palavras tenham ido embora, em vez do sentimento.
Ou talvez o sentimento tenha ido junto.
O sentimento bom, porque o ruim continua.
Talvez eu não consiga me desligar de você por algum motivo.
Motivo do qual eu não queria nem que existisse.
E eu me odeio por ainda te amar dessa forma.
Mas eu não deveria falar isso em voz alta.
Eu não deveria admitir isso.
Como fiz algumas vezes.
Para mim mesma.
Quando só.
Eu não deveria mais nem estar escrevendo sobre você.
Eu não deveria nem mais ter contato com você.
Não deveria saber da sua vida, ou conviver.
Deveria viver numa ausência de você.
Mas quem disse que eu posso?
Quando eu quis me desligar, fui egoísta.
Quando quis tentar conviver, doeu a beça.
E parece ser impossível viver num meio termo,
Ou fazer as pessoas entenderem que eu ainda sinto.
E que eu me odeio por sentir.
Coisas que eu demorei tanto para aceitar em mim.
Coisas que foram tão difíceis de entender.
Situações que se tornaram fonte de tristeza absoluta eu tenho que permanecer na minha vida.
Porque senão eu estarei sendo egoísta.
Egoísta.
Eu tenho que estar feliz pelas que me separaram de você.
Tenho que esquecer e vê-las como eram antes.
Eu tenho que perdoar você e elas.
As pessoas que fizeram tudo isso acontecer.
As pessoas que transformaram amor em angústia.
De ter que te ver e não poder te tocar.
De ter que me afastar de você para não atrapalhar a sua felicidade.
Porque eu simplesmente não consigo conviver.
Por estar sendo egoísta de te querer pra mim.
Me conforta estar te vendo feliz.
Mas não salva as coisas que aconteceram.
Você reclamou delas, mas foi igualmente fria.
E eu simplesmente não consigo te culpar por tudo.
Não consigo te ver como ruim, mesmo sabendo da gravidade do que você fez.
Ainda tenho que ficar em silêncio para que ninguém descubra e te julgue.
Porque esse era o nosso segredinho.
E eu não sei lidar com isso.